Os 10 Melhores Quadrinhos de 2022!
Em um ano com muitos lançamentos internacionais no Brasil e ótimas obras caseiras, as HQs voltaram com força no pós-pandemia.
Criar a lista de Melhores do Ano sempre foi um exercício jornalístico interessante. Nessa curadoria de obras lançadas nos 12 meses anteriores conseguimos refletir sobre a produção dos mercados cinematográficos, da TV e dos streamings, além do editorial. Discutir tendências, inovações e surpresas. Como toda lista, tudo é muito subjetivo, claro, pois se trata de um recorte, um retrato que faz conexões com o contexto cultural, político, com o trabalho dos artistas, etc. A lista é uma conversa.
E chegamos a última semana do ano, e com ela a redação da A Era Nerd decidiu dedicar cada dia o Top 10 entre quadrinhos, séries, filmes, games e expectativas para as produções da cultura pop em 2023. Começamos nesta segunda-feira (26) com a lista dos melhores quadrinhos lançados no Brasil em 2022. Vamos nessa!
10 - Imbatível - Justiça Super-herói da Proximidade

Em 2020, a Nanabooks, selo da Saber e Ler Editora, lançou Imbatível - Justiça e Legumes Frescos, com as desventuras do super-herói criado pelo francês Pascal Jousselin. O herói, que tem como super-poder a metalinguagem, chamou a atenção de muita gente - inclusive vos escreve - em primeira aventura traduzida para o português. Dois anos depois, a segunda edição Imbatível - Super-herói da Proximidade, mostrou mais do herói sabe que está em uma HQ, e ele consegue transcender os limites dos quadros e das páginas. O autor explora e brinca com diversos elementos da mídia, como narrativa, viradas de página, perspectiva, quadros, calha, balões e a frente e o verso das páginas.
Com o poder de perceber e manipular esses elementos estruturais de uma história em quadrinhos, ele enfrenta vilões com uma boa dose de humor. Pode-se dizer que é um mais do mesmo da primeira edição, mas com uma premissa tão rica e cheia de possibilidades para a mídia, essa é uma dica imbatível.
9 - Quarteto Fantástico: Consertar Tudo

Originalmente lançada em 2009, Quarteto Fantástico: Consertar Tudo traz uma das mais celebradas fases da famosa família da Casa das Ideias. Com roteiro de Jonathan Hickman e com a arte de Dale Eaglesham e Neil Edwards.
Embora bastante celebrada na Era de Prata, entre os anos 1960 e 1970, os anos 2000 foi uma década bastante rica para o grupo, com histórias que conseguem mergulhar na ficção científica e a fantasia, mas sempre bem-humorado, explorando a relação dessa família. A fase roteirizada por Hickman não foi diferente. a trama de Consertar Tudo traz Reed Richards analisando a possibilidade de aplicar uma de suas criações mais ambiciosas, a ideia 101, em outras palavras, consertar tudo.
Reed quer encontrar uma solução para resolver todos os problemas possíveis do multiverso. Com isso, Reed entra em contato com seres misteriosos que possam auxiliar o cientista nesta jornada e gradualmente descobrindo que com a ajuda destes seres, Reed pode realizar grandes feitos dignos de deuses.
8 - Low Volume 2: Antes que o Alvorecer nos Destrua

Em um futuro distante, a expansão prematura do sol irradiou a Terra. Forçando a humanidade a procurar refúgio no fundo dos mares, em cidades protegidas da radiação, enquanto sondas-robôs vasculham o universo atrás de um novo lar. Muitos séculos depois, uma família será destruída pelo conflito que dará início à corrida que pode ser a última chance de sobrevivência para os humanos em um planeta moribundo.
E fantástica fantasia aquática criada por Rick Remender e Greg Tocchini, que na edição brasileira, reuniu, os dois encadernados americanos que finalizaram a série. Leitura obrigatória para fãs de fantasia e ficção científica!
7 - Brega Story

A cena tecnobrega do Norte do país é, hoje, inegavelmente uma das maiores potências criativas do país. E o que nos chega para consumo pronto desse universo é sua explosão sonora, suas cores e outros elementos, que por vezes, aparecem através de um filtro condescendente do exótico. Várias obras de arte, como filmes, novela e clipes, já se apropriaram desses elementos para compor histórias, mas poucas conseguiram proporcionar um mergulho tão aprofundado como esse Brega Story, novo quadrinho de Gidalti Jr., autor vencedor do Prêmio Jabuti com "Castanha do Pará". A obra também marca a estreia da nova editora Brasa, cuja proposta é publicar quadrinhos nacionais que discutam o Brasil.
Para além da narrativa instigante, existe um fator fundamental para este redator. Nasci no Pará e cresci no Amapá, mesmo durante uma adolescência regada a muita rebeldia sem causa e new metal, era impossível desviar dos grupos de tecnobrega que, posteriormente, aprendi a apreciar. E um dos grandes acertos de Gidalti nesse quadrinho é a ambientação dos bastidores do universo do brega de Belém do Pará.
6 - Social Fiction

Se você é do tipo que está cansado de histórias de super-heróis, recomendo procurar mais sobre a editora Comix Zone, que
Vem trazendo muitos materiais alternativos para o Brasil. Nosso 6º colocado é Social Fiction, uma antologia com histórias de ficção científica que a autora francesa Chantal Montellier fez para a aclamada revista Métal Hurlant.
Ao todo são três contos em quadrinhos. Em Wonder City, Shelter e 1996 – realizados entre os anos de 1976 e 1983 –, Montellier combina a cultura pop com uma narrativa incisiva e uma surpreendente capacidade de antecipar o futuro.
A obra da autora, considerada uma das mais relevantes artistas dos quadrinhos franceses nos últimos 50 anos, é marcada pelo seu engajamento político e por uma denúncia radical de todas as formas de violência e opressão.
5 - Dente de Leite

Através da rotina de uma senhora, conhecemos suas angústias, medos, arrependimentos, perdas e falsas escolhas. Falsas escolhas porque ela apenas seguiu, sem vontade ou desejo próprios, o que a sociedade impõe para a vida das mulheres: a maternidade.
Percebe-se então que ela nunca teve uma decisão só sua. Ela engravidou, casou e teve dois filhos: Lourenço, que morreu ainda bebê, e Ricardo, o mais velho. Aqui, a maternidade é crua, solitária, não sendo desejada, mas, no futuro, causando uma espécie de desespero ao ter medo da solidão, da perda e do abandono, tendo o apego ao extremo.
Dente de Leite é uma HQ profunda, angustiante e chocante. Levanta questões importantes e nos faz questionar: até onde nós iríamos para não ficarmos sozinhos no mundo? E o quanto de sofrimento nós aguentamos, simplesmente por acharmos que merecemos tal violência?
4 - O Fim da Noite

Conduzidas pela força e luta da avó, Aurora, que trabalha como empregada doméstica desde os dez anos de idade, três gerações de mulheres negras lutam pela sobrevivência, por direitos básicos, e por melhorias nas suas vidas e de suas famílias. Este é o enredo de O Fim da Noite, graphic novel inspirada nas jornadas pessoais das avós, mães e tias do premiado quadrinista Rafael Calça – coautor de "Jeremias – Pele" e "Jeremias – Alma" – e do ilustrador Diox, ambos de São Paulo, que apresenta as vidas e as histórias dessas mulheres que se dedicaram arduamente para que os filhos pudessem estudar e construir uma vida melhor.
O Fim da Noite, nos lembra que “a noite sempre esteve associada ao mistério, ao lugar dos perigos. Remete até a morte, para onde talvez viajemos além do véu que nos separa do mundo físico. E é inegável o quanto o medo do escuro foi normalizado àqueles habituados ao desconhecido, às ameaças (diretas ou veladas) e ao luto do corpo e da própria história”.
3 - A Mão Verde e Outras Histórias

E nosso pódio começa com mais um lançamento da Comix Zone!, A Mão Verde e Outras Histórias, da artista francesa Nicole Claveloux é uma excelente adição à coleção de qualquer aficionado por quadrinhos. Os motivos são vários. Primeiro, a qualidade do material em si dispensa quaisquer justificativas. O material é um dos mais belos quadrinhos já ilustrados, carregado de lirismo, reflexões e uma dose mais do que bem-vinda de melancolia, transmitindo a cada quadro um mundo íntimo e imersivo de sonhos privados de emoções profundas e complexas.
No quadrinho existe todo um mundo reconhecível, e, em simultâneo, completamente imaginário, construído para ser visto como um mundo vivo. Depois disso, vale dizer que Claveloux fez parte da pioneira revista Metal Hurlant, precursora da conhecida Heavy Metal, que perto da primeira chega até mesmo a empalidecer. Junto a nomes como Yves Chaland, Serge Clerc e Chantal Montellier, trouxe frescor e intelectualidade para os quadrinhos, influenciando muitos grandes nomes a partir de suas publicações.
Além de ser repleto de emoção e mistério genuínos, o texto e a arte é sempre tomado por uma autoconfiança artística destemida e focada no interior e uma autoconsciência perceptível. Trata-se, portanto, de uma obra ousada, desde a fluidez dos traços até suas incríveis mudanças de estilo.
Nada me convence de que Alan Moore e Neil Gaiman não foram influenciados por essa geração na composição de algumas de suas obras máximas, como “O Monstro do Pântano” e “Sandman“. Mas mesmo aqueles que não leram “A Mão Verde”, foram certamente direcionados por seu vigor, mesmo que não a tenham lido, em razão da influência indireta.
2 - Satânia

Em Satânia, a história acompanha um grupo de exploradores buscando por um amigo perdido em uma caverna. Presos ali, eles precisam encontrar uma saída. E essa saída pode aproximá-los mais e mais do que parece ser o inferno.
Com um equilíbrio do mistério e histórias quase endárias que um dos membros desse grupo ouviu sobre o que há lá embaixo. O que os move. Charlie quer encontrar o irmão, mas acaba fascinada pelas possibilidades oferecidas no subterrâneo. O abade quer sair dali a todo custo, mas acaba agindo com mãos de ferro para proteger o grupo. Tem aqueles que não aguentam o que encontram, e perdem completamente a cabeça. Outros que contemplam mentiras em uma onda de fúria.
Satania foi além de uma grata surpresa, ela é o tipo de história que faz o cérebro entrar em combustão, e essa com certeza foi uma delas. Da superfície ao inferno, e talvez mais além, é um quadrinho para explorar o máximo do horror e do inesperado.
1 - O Homem Rabiscado

E o grande campeão de 2022 é O Homem Rabiscado de Serge Lehman e Frederik Peeters.
Na história publica em 2018, conhecemos uma Paris sufocada pela chuva, onde mãe e filha partem em busca de respostas para um segredo ancestral presente na família. Aos 40 anos, Betty Couvreur vive à sombra de sua mãe, Maud, escritora de livros infantis. Porém, Maud parece estar sendo chantageada há muito por um enigmático vigarista chamado Max Corbeau.
Betty, após descobrir tal situação, inicia uma busca por suas origens na companhia da própria filha, Clara. Assim, acompanhamos mãe e filha em uma viagem de iniciação à terra dos monstros e maravilhas.
Serge Lehman e Frederik Peeters estão em sua melhor forma nesta HQ. O texto de Lehman se encaixa com perfeição na arte de Peeters que, por sua vez, dá dimensão e profundidade à história. Enquanto somos guiados pela narrativa incisiva de Lehman, nos vemos obrigados a contemplar cada quadro desenhado por Peeters. Portanto, é fácil para nós, leitores, mergulhar nos detalhes presentes nesta HQ.
O Homem Rabiscado é uma daquelas histórias memoráveis que conseguem executar a proposta que tem com perfeição! A HQ possui um ritmo intenso e um mistério envolvente que são perfeitamente balanceados com ótimas interações entre personagens muito bem desenvolvidos. Prepare-se para uma leitura cheia de reviravoltas e de eventos surpreendentes que nos deixam sem saber o que esperar até o EXCELENTE fim!
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