CRÍTICA | Batman (2022) - A Sinfonia da Noite

Suspense policial traz a versão mais depressiva e sombria do personagem no cinema.
By CAJR
02/03/2022

Batman, como uma entidade no cinema, é surpreendentemente maleável. A cada instância, o personagem foi decididamente diferente da anterior, e essa lei ajudou a manter sua longevidade e relevância desde os primeiros seriados nos anos 40. Christopher Nolan e o Batman de Christian Bale estavam preocupados com as implicações do terrorismo em um universo bastante crível. O Cavaleiro das Trevas apresentava vigilância sem mandado em toda a cidade para rastrear o Coringa, um antagonista desequilibrado que parecia não ter um motivo claro além da destruição completa. O Batman de Michael Keaton e Tim Burton, por outro lado, tinha motivações diferentes envolvendo um mundo fantasioso, que davam vazão à figuras pitorescas como o Pinguim sem causar estranhamento perante ao público. Já Ben Affleck… bom, ele nunca teve a oportunidade de abrir suas asas (de morcego) e foi relegado a segundo plano ante ao Superman de Henry Cavill.

Para Batman (2022), Matt Reeves e Robert Pattinson estão interessados em colocá-lo dentro de um mundo que não é tão diferente do nosso. Há corrupção em todos os lugares, e a fé nas instituições públicas está praticamente esgotada. As consequências para quem está no poder que abusam dele parecem ser anuladas. Bruce Wayne, no meio disso, abre o filme questionando se ele está realmente fazendo algum bem desde que começou a combater o crime vestido de morcego. Desde cena de abertura, Gotham é apresentada como um lugar que pode não valer a pena salvar.

Gotham Noir

Para os que ficaram bitolados com as recentes adaptações de quadrinhos cinema, sobretudo do Universo Marvel, Batman pode parecer exageradamente arrastado e sombrio, embora a segunda opção seja verdade, ela faz sentido na proposta de criar um thriller policial noir da velha escola, não muito diferente de Chinatown ou Los Angeles - Cidade Proibida. A cidade é marcada por chuvas e sombras constantes, e ninguém fica limpo e seco por causa disso. Comparado com as iterações anteriores do Batman, este parece bastante realista na forma como retrata todos os seus personagens, mesmo em uma fórmula.

A propósito, a abordagem noir vai além da ambientação e direção artística, visto que estamos falando de um filme policial, que até tem seus momentos de ação, mas trata-se, prioritariamente, de uma história do Batman - finalmente! - atuando como detetive. Tanto que existem convenções desse tipo de filme, como o núcleo gangster e a femme fatale. Todos esses elementos, é claro, são adaptados de forma que fique crível dentro de uma história baseada no universo do Homem-Morcego.

Personagens e atuações

Jim Gordon, interpretado com serena confiança por Jeffrey Wright, parece exausto. Bruce Wayne, quando aparece fora de sua armadura corporal, ele está pálido e distante como, se estivesse permanentemente traumatizado – como qualquer um ficaria se sua maneira de lidar com isso fosse se fantasiar de morcego e bater em criminosos. Quando está na persona Batman, diferente de muita de suas versões, ele é frequentemente atingido em batalha, mas revida com uma ferocidade, tornando-o mais assustador e demonstrando toda sua instabilidade psíquica, além da inexperiência enquanto vigilante. Afinal, no longa, Bruce está usando o capuz de morcego há pouco mais de um ano.

O mafioso cheio de cicatrizes de Colin Farrell parece ter saído do set de Os Sopranos. Zoë Kravitz, enquanto isso, consegue manter o equilíbrio de alguém que já apanhou muito da vida, mas que sabe se cuidar sozinha. A atriz consegue ainda possuir a forte presença e sensualidade características da personagem. Paul Dano como Charada é tão louco e assustador quanto você esperaria dele, mais ainda quando você percebe que o roteiro de Peter Craig e Reeves joga com suas motivações de uma maneira tão única, para esse tipo de filme.

Storyteling

A capacidade de Reeves de criar atmosfera e tensão é casada com uma escala mais íntima de ação e espetáculo. Os cenários têm uma natureza mais tátil do que qualquer outro universo baseado em histórias em quadrinhos. Tal intensidade também dá mais impacto e essas características ganham profundidade devido à tecnicidade da cinematografia do longa.

Embora existam inspirações em alguns arcos dos quadrinhos, como O Longo Dia das Bruxas, Batman - Ano Um, Batman Ego e até mesmo Terra Um, o filme de Reeves traz uma nova história e abordagem ao Charada de Paul Dano, que dá um fator extra de impressividade - incluindo aos fãs de quadrinhos - nas ações e motivações do antagonista do filme. Bem como em trazer um Batman muito mais perturbado, onde Bruce Wayne é quase inexistente e que, por vezes, nos faz acreditar que vestir o capuz piora ainda mais os problemas psíquicos do protagonista.

A "paleta" escura de Batman

O diretor de fotografia Greig Fraser, que trabalhou anteriormente com Reeves no excelente, mas não tão badalado Deixe-me Entrar, permite arestas ao redor da tela e está mais preocupado com a autenticidade do que com manter as coisas limpas e estéreis. É revigorante para os personagens, mas principalmente para o protagonista.

Fraser utiliza da escuridão como um recurso visual em favor do personagem. Cria uma espécie de "paleta" com tons sombrios, que ganha tonalidades diferentes com a fumaça e as contantes cenas de chuva. Aqui, mais do que em qualquer outro longa do personagem, frase "Batman é a escuridão", é praticamente literal.

Assim como filmes noir clássicos, em momentos-chave as cores quentes, sobretudo o vermelho sangue, se sobressai. Fraser faz de tudo para sair da zona de conforto da famosa paleta azul com cores frias - popularizada por Zack Snyder - para dar uma densidade na história. Pelo contrário, as cores quentes dão um tom sexy em meio à escuridão e tal atmosfera vai além do capricho técnico, ela dá tom as cenas, vide a iluminação nos encontros de Batman com a Mulher Gato e a forte tensão sexual mútua entre os personagens.

Direção de arte

Se a direção de fotografia de Fraser encorpa o personagem e dá até mesmo tons fora da realidade - dentro do possível nesse universo - a direção de arte, que vai desde à ambientação da Gotham, que parece uma mescla da realista dos filmes de Nolan, com a extremamente caricata dos de Burton, como também na construção visual do Batman.

Funcionalidade é a palavra-chave, mas diferente da trilogia Cavaleiro das Trevas, não existem grandes aparatos bélicos e tecnológicos, mas sim funcionais, diria que até mesmo, rudimentares. Os principais exemplos são: o Batmóvel, que mais parece ter saído de um Mad Max, um veículo esportivo com muitos aparatos e equipamentos para a guerra urbana; E o símbolo de morcego no peito da armadura, que pode ser removido e utilizado como uma shuriken.

A Queda do Morcego?

Se há uma reclamação sobre Batman, é que ele fica atolado em sua própria narrativa. Com uma duração de três horas, o filme termina com alguma "gordura", sobretudo na sinuosa transição do final do segundo para o terceiro ato. Na sua tentativa de grandiosidade ele também antecipa alguns passos de uma trama investigativa, que é até boa, mas não é genial, como ela acredita que é. Aos que já viram Zodíaco Se7en - Os Sete Crimes Capitais, ambos de David Fincher, também podem encontrar inspirações mais fortes até mesmo que os próprios quadrinhos. Se isso é bom ou não, vai de fã para fã.

Conclusão

Dado como os filmes de quadrinhos são frequentemente acusados de serem cortes e recortes deles mesmos, Batman pode ser taxado de tudo, menos de ser mais do mesmo dentro desse sub-gênero. Ele tenta, a todo momento gritar "eu sou um filme sério e adulto" e talvez esse esforço todo soe como exagero, mas foi a forma que os realizadores conceberam, tentando agradar quem sempre reclama da previsibilidade da trama de filmes baseados em personagens de quadrinhos.

Indiscutivelmente o mais sombrio e intenso que o personagem já foi retratado em live-action, Batman é uma forte estreia para Robert Pattinson no capuz e mais do que faz jus ao legado do personagem. O forte elenco de apoio, a visão ousada, a trilha operística de Michael Giacchino, que casa perfeitamente com a direção de fotografia de Greig Fraser, criando uma "sinfonia da noite" e o balé é o estilo cru da ação do filme. Tudo isso traz vitalidade a um personagem que tem quase oito décadas de história na tela.


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CAJR - Carlos Alberto Jr

Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor de filmes valvulado. Jornalista do Norte que invadiu o Sudeste para fazer e escrever filmes.
  • Animes:Cowboy Bepop, Afro Samurai e Yu Yu Hakusho
  • Filmes: 2001 – Uma Odisseia no Espaço, Stalker, Filhos da Esperança, Frank e Quase Famosos
  • Ouve: Os Mutantes, Rush, Sonic Youth, Kendrick Lamar, Arcade Fire e Gorillaz
  • Lê: Philip K. Dick, Octavia E. Butler, Ursula K. Le Guin e Tolkien
  • HQ: Superman como um todo, assim como as obras de Grant Morrison e da verdadeira mente criativa por quase tudo na Marvel: Jack Kirby