Não que eu seja algum tipo de teoria conspiratório do final dos tempos, mas eu realmente acredito que exista um plano da Netflix para tentar destruir o cinema – ou, pelo menos, o que existe de melhor nele. Produzido por Fede Alvarez, responsável pelo excelente remake de A Morte do Demônio e o ótimo O Homem nas Trevas, O Massacre da Serra Elétrica: O Retorno de Leatherface não chega a ser a porcaria que prometia ser, ou até mesmo entre os antecessores - sério, que franquia cheia de filmes ruins! - mas algumas coisas precisam ser ditas sobre este filme.
Primeiro, que a ideia de colocar esta obra como uma continuação do original, de 1974, dirigido por Tobe Hooper, é um erro e um acerto, em simultâneo. Porém, diferente da crueza e do realismo da produção setentista, este novo longa, comandado por David Blue Garcia, é repleto de neons coloridos, apostando em uma estética mais contemporânea, enquanto apela para um espetáculo exagerado de gore e matanças que beiram à galhofa.
Mas ainda que seja um saco ver a Netflix entregando obras que trabalham esta modernidade, enquanto se utiliza de franquias de quase 50 anos, e nos fazem engoli-las, com esta nova roupagem, algumas das ideias mais interessantes deste filme vêm justamente disso. Uma delas é a forma como o longa trabalha uma reflexão sobre as leis armamentistas, principalmente, no Texas, local onde, novamente, se situa a história. Outra, é como este culto norte-americano às armas está diretamente relacionado aos massacres em colégios dos Estados Unidos – como Michael Moore bem retratou em seu Tiros em Columbine, ao deixar a foto das vítimas do massacre na porta do ator Charlton Heston, adorador ferrenho de um cano grosso.
O elenco é bastante miscigenado, e é realmente um avanço, nesse tipo de produção, que a loirinha bonitinha seja a primeira vítima – ao invés do negro ou do maconheiro estereotipado, em um discurso moralista antidrogas. Aliás, existe uma discussão interessante, na obra, sobre o racismo intrínseco na cultura norte-americana, o que, por si só, já é um mérito da produção. Porém, mesmo com tantos pontos interessantes, a sensação de assistir a O Retorno de Leatherface soa como um eterno mais do mesmo.
Hollywood está em crise, e isto não é segredo para ninguém. Portanto, só o que lhes resta é apelar para estas franquias renomadas, mesmo que exista um conservadorismo gigantesco perante essas marcas. Tal elemento se mostra mais do que evidente neste novo O Massacre da Serra Elétrica, até porque, mesmo que com um elenco radicalmente novo, existe um certo preciosismo, principalmente, em relação ao próprio Leatherface, que faz com que essas franquias nunca saiam do lugar, deixando sempre arestas para futuras continuações, no intuito de gerar lucro.
A trama acompanha um grupo de jovens descolados, contemporâneos e idealistas, que se mudam para Harlow, no Texas, com o intuito de criarem um projeto humanitário. Porém, chegando lá, uma senhora se recusa a abandonar sua casa e cedê-la ao grupo, mas, mesmo contra a vontade da empática Melody (Sarah Yarkin), os jovens decidem tomar o local para eles, o que acaba fazendo com que a idosa, com problemas de saúde, acabe falecendo. Mas o que “ninguém” esperava é que esta senhora fosse a mãe do próprio Leatherface, que fica sedento por vingança, por conta de sua perda.
Tecendo críticas a vários cânceres contemporâneos, como, inclusive, essa sociedade do espetáculo, na forma como vários turistas encaram a persona do serial killer, o longa consegue ir um pouco além do esperado, ainda que este, em determinado momento, abrace o armamento, como se fosse a única salvação perante um maluco armado com uma motosserra. Mas nem é só isto que deixa a desejar, até porque, quando o longa se rende ao clichê de personagens tomando decisões estúpidas, fica claro que se trata de mais uma produção que não inova, em absolutamente nada, o seu gênero.
Tanto é que é difícil ficar surpreso com a maneira à lá badass, com a qual tratam Sally Hardesty, a sobrevivente do longa original, como se esta fosse aquela versão durona de Jamie Lee Curtis, no Halloween de 2018. Mas, diferente de Laurie Strode, Hardesty não possui nem tanto carisma ou importância para a franquia, convenhamos.
Embora as cenas de mortes sejam repletas de sangue e brutalidade, o destaque vai apenas para a sequência no ônibus (que faz uma ótima piada sobre "cancelamento"). Mesmo com um cenário imenso e várias oportunidades, nada chega a ser aproveitado da forma devida. O Massacre da Serra Elétrica o Retorno de Leatherface acaba sendo mais um filme caça-niqueis da franquia, e demonstra que a mesma ainda não conseguiu alcançar seu retorno triunfal aos cinemas.
Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor de filmes valvulado. Jornalista do Norte que invadiu o Sudeste para fazer e escrever filmes.