Crítica: Homem aranha um novo dia
O Homem-Aranha continua fazendo piadas enquanto enfrenta criminosos!
Quando Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa chegou aos cinemas, o impacto foi imediato. A combinação de multiverso, nostalgia e o retorno de Tobey Maguire e Andrew Garfield como suas respectivas versões do herói transformou as sessões em verdadeiros eventos para os fãs. A reação coletiva do público ajudou a explicar a força que a cultura pop alcançou nos últimos anos.
O problema é que, passado o hype da estreia e revisto longe da euforia das salas de cinema, o longa revela uma dependência excessiva do fan service. Ainda existem bons momentos, mas a nostalgia acaba funcionando como uma espécie de "teia narrativa" que sustenta boa parte da experiência.
É justamente nesse cenário que Homem-Aranha: Um Novo Dia encontra seu diferencial. Em vez de tentar superar o gigantismo multiversal de seu antecessor, a produção dirigida por Destin Daniel Cretton aposta nas consequências deixadas por ele.
Peter Parker está sozinho. Esquecido pelo mundo, afastado dos Vingadores, sem mentores, sem grandes ameaças cósmicas e distante da estrutura tecnológica que acompanhou boa parte de sua trajetória no MCU. A proposta é mais urbana, pessoal e centrada no personagem.
Essa mudança aproxima Tom Holland de uma representação mais madura e clássica do Homem-Aranha. O herói volta a carregar sobre os próprios ombros aquilo que sempre esteve no DNA do personagem: responsabilidade, culpa, sacrifício e o peso de fazer a coisa certa mesmo quando ninguém está olhando.
O peso da escolha de Peter
Um dos maiores acertos de Um Novo Dia está justamente na maneira como o filme trabalha a decisão tomada por Peter no final de Sem Volta Para Casa. Em vez de simplesmente ignorar as consequências do feitiço, a produção transforma a escolha em parte fundamental do desenvolvimento emocional do personagem.
Peter mantém MJ e Ned afastados e permite que ambos continuem suas vidas sem saber quem ele realmente é. O resultado é um protagonista constantemente confrontado com aquilo que perdeu.
Tom Holland funciona bem nessa nova configuração. A personalidade adolescente, atrapalhada e bem-humorada dos filmes anteriores ainda aparece, mas agora existe uma camada evidente de desgaste emocional. O Homem-Aranha continua fazendo piadas enquanto enfrenta criminosos, mas existe um cansaço por trás da máscara.
Essa crise também ganha uma manifestação física. Os poderes de Peter começam a sofrer alterações, transformando seu próprio corpo em uma espécie de campo de batalha. A ideia adiciona uma interessante camada de horror corporal ao longa e remete, ainda que indiretamente, ao cinema de Sam Raimi.
A relação entre corpo, poder e trauma é uma das ideias mais promissoras do filme. O problema é que ela perde espaço conforme a história avança. Aquilo que inicialmente parece ser um dos grandes pilares da narrativa acaba sendo parcialmente deixado de lado no terceiro ato.
O longa ainda utiliza a transformação em momentos importantes, mas não desenvolve completamente as consequências que estabelece inicialmente. Fica a impressão de que havia ali uma ideia capaz de tornar Um Novo Dia ainda mais estranho, autoral e diferente dentro do MCU, mas que acabou diluída pela necessidade de acomodar outros personagens e núcleos narrativos.
MJ e Ned ganham uma nova função
Embora Zendaya e Jacob Batalon tenham participações menores do que se poderia imaginar, MJ e Ned continuam sendo importantes para a trajetória emocional de Peter.
Os dois representam aquilo que o herói perdeu. A amizade, o relacionamento e a antiga vida continuam existindo, mas agora estão separados por uma barreira praticamente impossível de atravessar.
O roteiro merece crédito por não recorrer a soluções fáceis. Considerando os poderes disponíveis no universo do MCU, seria relativamente simples imaginar alguma saída conveniente para recuperar as memórias de Peter ou desfazer as consequências do feitiço.
O filme, porém, evita esse caminho.
Essa decisão fortalece o aspecto dramático da história e reforça a ideia de que ser o Homem-Aranha significa aceitar perdas que não podem simplesmente ser corrigidas com um novo dispositivo tecnológico, uma viagem pelo multiverso ou algum truque de roteiro.
Nova York finalmente volta a respirar
Outro avanço significativo está na parte visual.
Sem Volta Para Casa apresentava momentos eficientes de fan service, mas também sofria com uma fotografia frequentemente escura, cenários digitais e uma estética excessivamente artificial. Um Novo Dia adota uma abordagem visual mais colorida, clara e vibrante.
Nova York ganha mais personalidade, o uniforme do Homem-Aranha aparece melhor em cena e as sequências de ação possuem maior clareza visual.
O destaque fica para as cenas em que Peter atravessa a cidade pendurado em suas teias. A movimentação possui uma fluidez que lembra bastante os jogos mais recentes do personagem, principalmente pela sensação de velocidade e pela maneira como a câmera acompanha o herói entre os prédios.
Há também um cuidado maior com os enquadramentos e com a linguagem das cenas de ação. As lutas são mais variadas, com combates aéreos, confrontos mais físicos, câmera lenta utilizada pontualmente e coreografias que procuram diferenciar cada sequência.
O confronto envolvendo o Tentáculo é um dos melhores exemplos dessa evolução. A fisicalidade da batalha e alguns enquadramentos remetem ao cinema de ação asiático, criando uma sequência dinâmica e visualmente interessante.
Nem todas as cenas conseguem manter esse nível. Quando o filme abandona os grandes espaços urbanos e concentra a ação em ambientes fechados, parte dessa energia diminui. Ainda assim, o resultado é consideravelmente mais vibrante do que o apresentado anteriormente.
Hulk: carisma sem muita função
A participação de Hulk é um dos elementos mais questionáveis da produção.
Mark Ruffalo mantém o carisma habitual e, inicialmente, existe uma justificativa narrativa para Peter procurar alguém capaz de ajudá-lo a compreender as alterações que estão acontecendo em seu corpo.
O problema é que a participação parece extremamente protocolar.
O personagem aparece para entregar algumas informações, protagonizar uma sequência de ação e reforçar a ideia de descontrole físico, mas rapidamente deixa de ser relevante para a narrativa.
É divertido? Sim.
É memorável? Nem tanto.
Dentro de um filme que tenta reduzir a dependência de participações especiais, a presença do Hulk acaba parecendo mais uma concessão ao tamanho do MCU do que uma necessidade real da história.
Justiceiro encontra o Homem-Aranha
A situação é um pouco diferente com o Justiceiro.
Jon Bernthal funciona bem na dinâmica com Tom Holland, principalmente pelo contraste entre os dois personagens. De um lado, temos o Homem-Aranha, marcado pelo humor e pela tentativa constante de evitar mortes. Do outro, Frank Castle, um vigilante brutal que segue uma lógica moral completamente diferente.
Essa diferença cria momentos divertidos e algumas interações interessantes.
O filme também reserva ao personagem uma cena mais próxima do final que adiciona uma camada dramática relevante ao arco de Frank.
Ainda assim, existe uma questão importante envolvendo sua caracterização. A versão apresentada em Um Novo Dia parece mais leve e descontraída do que aquela vista em outras produções recentes do MCU.
Para funcionar dentro da aventura de Peter Parker, Frank Castle acaba sendo suavizado. Isso não elimina o interesse da participação, mas faz com que o personagem pareça menos coerente com sua própria trajetória.
Uma nova ameaça para o Amigão da Vizinhança
A identidade da principal antagonista é melhor preservada sem spoilers, especialmente porque sua presença representa uma escolha bastante curiosa por parte do roteiro.
A personagem escolhida para ocupar esse papel causa estranhamento justamente por ser colocada em um contexto diferente daquele normalmente associado a ela nos quadrinhos.
Essa mudança acaba sendo uma das ideias mais interessantes da produção.
Seus poderes também ajudam a construir uma atmosfera mais macabra. Algumas de suas manifestações, principalmente no início, possuem uma aparência estranha e perturbadora, enquanto o filme tenta apresentar a ameaça como algo que Peter ainda não consegue compreender completamente.
Para quem conhece minimamente o universo do Homem-Aranha, entretanto, a identidade pode ser deduzida relativamente cedo. O roteiro tenta preservar o mistério, mas fornece pistas suficientes para que parte do público chegue à resposta antes da revelação oficial.
O problema maior aparece no desenvolvimento da antagonista.
Conforme a trama avança, ela perde parte da força construída inicialmente. Falta uma sensação mais consistente de perigo, uma oposição realmente crescente e uma presença capaz de pressionar Peter de maneira significativa.
Comparativamente, o Abutre de De Volta ao Lar possuía uma motivação bastante clara e uma conexão direta com a trajetória de Peter. O Mistério, em Longe de Casa, também apresentava uma presença marcante e uma função narrativa importante.
A antagonista de Um Novo Dia possui boas ideias, mas não consegue atingir o mesmo peso.
O problema do Departamento de Controle de Danos
O Departamento de Controle de Danos também é prejudicado pelo roteiro.
A organização aparece como uma peça aparentemente importante da trama, mas acaba funcionando principalmente como uma engrenagem para movimentar os acontecimentos.
A história passa a girar em torno da procura por uma personagem específica, porém essa investigação não recebe desenvolvimento suficiente para se transformar em um núcleo realmente envolvente.
É um daqueles elementos que parecem ter potencial para algo maior, mas acabam servindo mais às necessidades imediatas da narrativa.
Um Homem-Aranha menos preocupado com o multiverso
No fim das contas, Homem-Aranha: Um Novo Dia representa uma mudança interessante de direção para o personagem dentro do MCU.
Depois de um filme que apostou fortemente em nostalgia, variantes multiversais e encontros históricos entre diferentes gerações do herói, a nova produção prefere olhar para o próprio Peter Parker.
E essa talvez seja sua maior qualidade.
O longa não precisa reunir três Homens-Aranha para lembrar ao público por que o personagem é tão querido. Não precisa de dezenas de referências aos filmes anteriores. Não precisa transformar cada aparição em um momento de reconhecimento nostálgico.
Ele funciona melhor quando simplesmente acompanha Peter.
Um Peter sozinho.
Um Peter cansado.
Um Peter que perdeu pessoas importantes e precisa continuar sendo o Homem-Aranha mesmo assim.
É justamente nessa simplicidade que o filme encontra sua identidade.
Homem-Aranha: Um Novo Dia não é perfeito. A transformação corporal poderia ter sido muito mais explorada, algumas participações especiais parecem dispensáveis, o Justiceiro é suavizado para se encaixar na proposta, a antagonista perde força e o Departamento de Controle de Danos não entrega todo o potencial apresentado.
Ainda assim, dentro do cenário recente do MCU, o longa se destaca positivamente.
Visualmente mais bonito, dramaticamente mais focado e menos dependente de nostalgia, o filme consegue recuperar algo fundamental no personagem: o sentimento de que Peter Parker é apenas um jovem tentando fazer a coisa certa enquanto carrega um peso gigantesco nas costas.
Depois de tantos multiversos, variantes, cameos e eventos cósmicos, talvez o maior superpoder de Um Novo Dia seja justamente lembrar que o Homem-Aranha não precisa de tudo isso para funcionar.
Basta uma máscara, algumas teias, uma cidade para proteger e um herói disposto a continuar lutando mesmo quando ninguém sequer se lembra de seu nome.
Homem-Aranha: Um Novo Dia (Spider-Man: Brand New Day) — EUA, 2026
Direção: Destin Daniel Cretton
Roteiro: Chris McKenna, Erik Sommers
Elenco: Tom Holland, Zendaya, Sadie Sink, Jacob Batalon, Jon Bernthal, Florence Pugh, Tramell Tillman, Michael Mando, Mark Ruffalo, Zabryna Guevara, Marisa Tomei, Marvin Jones III, Eman Esfandi e Liza Colón-Zayas
Duração: 145 minutos
Siga a A ERA NERD em nossas redes sociais, curta e compartilhe!
Instagram
Youtube
X
TikTok
Twitch
BRDS - Bruno Kbelo
Publicitário, Desenhista, Desenvolvedor de software e Nerd por vocação!
Criou A Era Nerd pra falar de nerdisse e dar vazão à suas pirações!
- Animes: DragonBall, Ghost in the Shell, Akira
- Filmes: Blade Runner, Matrix, Exterminador do Futuro e é fã de Tarantino
- Ouve: Gnarls Barckley, Pitty, Iron Maiden, Matanza, Metalica, Guns e Música evangélica! (MORTE AO FUNK!)
- Lê: A Bíblia, Tolkien, Stephen King, Asimov
- HQ: Blame, V de Vingança, Sandman, Battle Angel Allita