Nos últimos anos o nome de Adam McKay esteve muito mais relacionado às grandes premiações do cinema, inclusive vencendo um Oscar, dois Emmys e um BAFTA, do que pela comédia, gênero no qual construiu sua carreira. Se desvincular da comédia por obras como A Grande Aposta e Vice fez do diretor e roteirista chamar muito mais atenção em sua nova comédia: Não Olhe Para Cima.
O novo longa de McKay, embora pensado muito antes da pandemia de Covid-19, caiu como uma luva na crítica social relacionada ao negacionismo com vacinas, a forma como figuras de poder e mídia não levam à sério problemas levantados pela ciência. Tal cenário, que mistura comédia de sátira e crítica direta, especialmente para a sociedade norte-americana, foi motivo o suficiente para criar richas entre os que amaram e odiaram o filme.
Foi de propósito
Antes de mais nada, é interessante contextualizar sobre o quê é o filme para quem caiu aqui de paraquedas: a ideia de Não Olhe Para Cima é de tecer críticas à falta de atenção planetária com problemas climáticos, como o aquecimento global. Para ilustrar esse objetivo é que entra a metáfora do meteoro.
São os astrônomos Randall Mindy (DiCaprio) e Kate Dibiasky (Jennifer) que fazem a descoberta surpreendente de que há um cometa orbitando o sistema solar e vindo em direção à Terra. Com o auxílio do doutor Oglethorpe (Rob Morgan), a dupla de pesquisadores encampa uma peregrinação na mídia e acaba no escritório da presidente Orlean (Meryl Streep) e de seu filho, Jason (Jonah Hill). Na conta dos cientistas autores da descoberta iminentemente fatal, restam seis meses para o choque, o que demandaria gerenciar as notícias o tempo todo e ganhar a atenção do público obcecado pelas redes sociais.
A possibilidade constante de um meteoro colidir com a Terra e acabar com a existência humana já rendeu preocupação, piadas e inspiração. Junta essas três situações para, em menos de uma semana disponível na Netflix, atingir uma repercussão quase astronômica. Dividindo a opinião da crítica e do público nas redes sociais, o longa-metragem do diretor Adam McKay é tema quase onipresente nas discussões, principalmente online. McKay sabia disso e até mesmo foi bem claro no longa.
Sem ir para os spoilers, há um momento crucial no final do filme que ele faz uma referência ao período em que o filme foi lançado: as festas de fim de ano. Momento em que famílias se reúnem e dependendo do estilo de vida, idade e opinião política, as discussões são mais comuns no offline, que no online. Você pode não gostar do filme, mas é inegável que ele gera debates, seja entre os cinéfilos, como só quem deu play por esse ser "o filme do momento".
Esse incômodo gerado por parte do público e crítica já aconteceu em outros momentos da carreira de McKay, como nos clássicos modernos da comédia: O Âncora. Por mais que sejam duas obras voltadas mais para a comédia, há apontamentos mais incivicos de como o jornalismo virou produto - detalhe, o filme se passa nos anos 70 - e que o âncora virou uma espécie de showman, não o responsável por falar a verdade e informar a sociedade. Bom, imagina a crítica, formada por jornalistas, escrevendo sobre a obra em 2004...
Brasil
Como parte da crítica do filme, Mckay sabe que trata os Estados Unidos como a única nação que pode salvar o mundo, justamente por direcionar sua crítica ao seu país e governantes - sobretudo o governo Trump - é claro que ele em momento nenhum pensou no Brasil, mesmo com tantas semelhanças. Era natural que por aqui os memes relacionados à situação atual do país não faltaram. Um deles mostra protagonistas do filme ao lado de figuras relevantes no debate público nacional sobre a crise sanitária, em tom comparativo. É o caso do presidente Jair Bolsonaro, seu filho Carlos Bolsonaro e os divulgadores científicos Átila Lamarino e Natália Pasternak.
Candidato ao melhor meme de 2021. "Don't Look Up" ou "Não Olhe para Cima" pic.twitter.com/Dp9R8g20hG
— Jornalistas Livres (@J_LIVRES) December 27, 2021
Assistir a Não Olhe para Cima é uma opção. Transitar por qualquer mídia social ou site de notícias sem topar com repercussões sobre o filme nestes últimos dias é praticamente inevitável. A produção reforça a polarização que vem tomando conta das redes sociais, com críticas e interpretações diversas de um lado e exaltações à forma como buscou retratar o negacionismo e o tratamento político de diversas questões sociais de outro. O filme é divisivo, mas o sucesso é unanimidade.
Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor de filmes valvulado. Jornalista do Norte que invadiu o Sudeste para fazer e escrever filmes.